Que coisa inútil é essa de perder algo que se ama muito e não pode perder ali na mesma hora o amor que sente. (Jão)
Tem gente que olha o meu coração e acha que encontrou uma casa abandonada, mas não. Até houve um tempo em que a porta vinha escancarada. Eu confundia acesso com afeto. Muita gente entrou sem bater, deixou marca nas paredes, virou móveis pelo caminho e foi embora como se nunca tivesse morado ali. Quando o silêncio voltou, fui eu que juntei os cacos, pintei as paredes, reforcei as ligas e aprendi que nem toda chave merece uma fechadura. Aqui cada cômodo tem nome, tem memória, tem cheiro. Cada janela sabe exatamente um vento que deve deixar abrindo. E eu escolho quem entra nessa porta. Quem fica só na sala, quem conhece a cozinha dos meus afetos. E raramente alguém ganha um quarto pra chamar de seu. Tem gente que chega pra uma visita e acaba virando moradia. Planta flores na varanda, deixa risada pelos corredores e faz do silêncio um lugar seguro. Mas casa nenhuma permanece em pé, se quem mora nela, esquece de cuidar. Se você bate as portas, quebra as janelas ou transforma abrigo em tempestade, eu não derrubo a casa por sua causa, eu troco a fechadura. Educação nunca foi dificuldade minha, mas isso não significa que a porta vá se abrir. Porque há pessoas que a gente recebe de volta na calçada, mas nunca mais dentro de casa. Meu coração não é bagunça, é lar. E lar não é pra quem sabe chegar, é pra quem sabe permanecer.
— .(Escrito dia 04/08/2026, às 23:27)


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