Durante muito tempo, a caça às bruxas foi ensinada como um capítulo de superstição medieval. Hoje, a historiografia mostra que o fenômeno foi muito mais complexo. Entre os séculos 15 e 18, dezenas de milhares de pessoas foram executadas sob acusações de bruxaria na Europa, sendo a maioria mulheres. As perseguições ocorreram em diferentes contextos políticos, religiosos e jurídicos, atravessando tanto territórios católicos quanto protestantes. Em Calibã e a Bruxa, Silvia Federici propõe uma interpretação que vai além da dimensão religiosa. Para a autora, a perseguição às chamadas "Bruxas" fez parte de um processo mais amplo de reorganização social durante a transição para o capitalismo. Nesse contexto, controlar a reprodução, o trabalho e a autonomia feminina teria sido fundamentais para a formação de uma nova ordem econômica. Essa leitura não é consenso entre historiadores, mas contribuiu para ampliar o debate sobre o papel das mulheres na história e sobre como relações de poder influenciam quais narrativas permanecem e quais são apagadas. Independentemente da interpretação adotada, existe um fato histórico bem documentado: Milhares de mulheres foram acusadas, torturadas e executadas em julgamentos de bruxaria. Estudar esse período não significa romantizar o passado nem afirmar que todas as acusadas eram curandeiras ou detentoras de conhecimentos ocultos. Significa compreender como medo, religião, política, justiça e relações de poder podem se combinar para legitimar perseguições. Leituras como Calibã e a Bruxa são valiosas justamente porque nos lembram que a história não é feita apenas de acontecimentos, mas também das diferentes formas de interpretá-los. Por que fomos ensinados a ter medo das bruxas e não de quem as perseguiu? Já reparou que quando você pensa em bruxa, você imagina isso? Só que essa imagem não nasceu por acaso. Entre os séculos XV e XVIII, milhares de pessoas, principalmente mulheres, foram perseguidas e executadas sobre acusação de bruxaria. Muitas delas eram parteiras, curandeiras, mulheres que dominavam conhecimento sobre a natureza, ervas, elementos, ou simplesmente mulheres que viviam à margem do papel esperado para elas naquela sociedade. A acusação de bruxaria dizia muito menos sobre magia e muito mais sobre poder. Afinal, quando uma mulher tinha autonomia, conhecimento, influência, fora das instituições religiosas e políticas, ela podia ser vista como uma ameaça. E a forma mais eficiente de controlar alguém nem sempre é pela força. Às vezes, é fazer com que as pessoas tenham medo de se tornar como elas. Talvez seja por isso que, ao longo do tempo, a figura da bruxa foi transformada nesse papel monstruoso que a gente vê hoje em desenhos, filmes, séries. Por que crescemos aprendendo a temer a mulher chamada de bruxa e quase nunca a questionar quem decidiu que ela era uma? Quem tem poder de contar uma história normalmente também tem o poder de escolher quem vai sair como herói.
Livro: Calibã e a Bruxa. Editora Elefante.
— .(Escrito dia 24/07/2026, às 17:51)


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