Criar flog

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Por que repertório cultural é tão importante? Repertório cultural é sobre a quantidade de livros que eu leio no mês, a quantidade de podcasts que eu ouço na semana? Não só isso, vem comigo. A sociologia entende isso de outro jeito. Pierre Bourdieu, explica que a cultura também funciona como um tipo de capital. Ou seja, quanto mais referências você tem, melhor a sua capacidade de compreender o mundo, dialogar com pessoas diferentes e ocupar determinados espaços sociais. Só que essas referências que ele fala não vêm apenas da chamada alta cultura. Canclini já mostrava que vivemos em culturas híbridas. Um livro, um meme, uma música, videogame, uma exposição e uma novela também produzem sentidos para a sociedade. E aí, o meu queridíssimo Stuart Hall já vem com outra ideia. Pra o Hall, é na cultura que construímos os nossos significados. Aquilo que a gente consome influencia diretamente naquilo que a gente acredita e como a gente enxerga o mundo, e até mesmo quem nós nos tornamos. Mas pra gente entender melhor isso, eu venho com outra referência. No ensaio "A Crise na Cultura", do livro "Entre o Passado e o Futuro", a Hannah Arendt, explica que na sociedade de massa, a cultura corre o risco de ser tratada apenas como cultura de entretenimento, perdendo parte do seu potencial de provocar reflexão e de preservar também a experiência humana. Essa ideia da Hannah, inclusive, dialoga bastante com o Bauman, aquele lá da modernidade líquida. Pra o Bauman, assim como o Stuart Hall, a cultura sempre teve um papel muito importante na construção de significados na sociedade, e é organizando esses significados que a cultura ajuda as pessoas a compreenderem o mundo. Mas na conhecidíssima modernidade líquida, a cultura passa cada vez mais funcionar sob a lógica do consumo. Em vez da cultura agora formar sujeitos críticos, muitas vezes ela oferece experiências rápidas, descartáveis e constantemente substituídas por novidades. Um exemplo disso são exposições extremamente caríssimas com projeções. E aí eu trago o filósofo, Byung-Chul Han. Ele argumenta sobre a sociedade do cansaço, que é a sociedade do desempenho, que a gente só faz as coisas pra chegar lá. Estamos sempre cansados e produzindo pra desempenhar algo. É o ponto que eu quero chegar, na formação do repertório cultural das pessoas. Quem vive exausto dificilmente encontra tempo pra ler um livro, pra visitar um museu, pra assistir um filme. Sociedade que não tem contato com diversos tipos de referências culturais, seu repertório vai ficando cada vez mais escasso, cada vez mais limitado. E esse repertório limitado dificulta a gente fazer relações, ter hobbies, ter hypes, participar de comunidade, interpretar discursos, ser ativo politicamente no mundo, e aí passa a consumir e deixarem outras pessoas pensarem por ela. No fim, o repertório cultural, ele não serve só pra gente ler mais, assistir mais, consumir mais cultura. Não é pra gente parecer mais inteligente e intelectual. Repertório cultural serve pra ampliar a nossa capacidade de pensar por nós mesmos e não aceitar que o que o outro fala está ok, é sobre mim também. Porque quanto maior o nosso repertório, maiores são as nossas possibilidades e probabilidades de questionar, de criar, de construir opiniões que são verdadeiramente nossas. E talvez seja justamente por isso que eu defendo tanto a cultura, porque pra mim, consumir cultura nunca foi um luxo. Sempre foi e sempre vai ser um ato de cidadania.

— .(Escrito dia 16/08/2026, às 10:28)


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