Todo relacionamento está destinado a acabar em algum momento. Mas nada te impede de começar um novo com a mesma pessoa. Essa frase é de Esther Perel, uma psicoterapeuta que participou da construção do filme O Convite, que, inclusive, se você ainda não assistiu, eu recomendo fortemente. Olivia Wilde, que além de atuar, dirigiu o filme, falou para os outros roteiristas que se eles iam falar sobre relacionamentos, eles deviam fundamentar com pesquisa e fatos, do mesmo jeito que eles contratariam um astrofísico se estivessem fazendo um filme sobre o espaço. E é por isso que o filme não é uma comédia romântica clichê, mas levanta discussões mais profundas sobre intimidade, desejo, responsabilidade, casamento, e o quanto as nossas questões individuais não apenas afetam, mas direcionam nossas relações. Quando Esther fala que nada nos impede de começar um novo relacionamento com a mesma pessoa, não é sobre reatar com um ex. Ela está falando que um relacionamento pode conter vários relacionamentos, porque as pessoas simplesmente mudam, e com isso os relacionamentos também mudam. Morre uma versão daquela relação para dar lugar à outra. Afinal, se vocês já não são aquelas duas pessoas que construíram aquele relacionamento, por que insistir em salvar aquela relação, aquela versão? Talvez insistir em salvá-la impeça o nascimento de uma nova, que pode ser muito mais interessante, saudável e compatível com quem vocês são hoje. É como se a gente passasse anos reformando uma casa e de repente ficasse indignada, porque ela não parece mais a casa original. Mas é que ela não deveria parecer. Ela perdeu paredes, ganhou janelas, ela foi sendo reconstruída, habitada, e as relações são habitadas também. Olivia Wilde chegou a comentar que Esther a fez olhar para os relacionamentos longos com menos cinismo. E eu acho que muita gente olha pra um relacionamento longo e imagina uma de duas coisas. Ou aquele casal caiu no marasmo e continua junto só por humorismo, ou então tiveram uma sorte sobrenatural, como se tivessem encontrado a pessoa perfeita e pronto. Eu acho que relacionamentos longos e felizes são, antes de tudo, fruto da coragem de abandonar versões antigas da relação, sem abandonar um ao outro. Porque o amor não é estático, nós não somos. Amar alguém por 20 anos provavelmente significa encontrar várias versões dessa pessoa ao longo do caminho e decidir conhecê-las, conversar com elas, e permitir que o outro faça o mesmo com você. Claro, isso dentro do que é saudável para ambas as partes, desde que essas mudanças não ultrapassem aquilo que para você é inegociável. Porque a gente também sabe que nem todo relacionamento deveria renascer. Alguns relacionamentos acabam porque precisam acabar. Não porque faltou reinvenção, mas porque faltou respeito, segurança, reciprocidade, enfim. Então é importante não ouvir essa frase como um dever, mas como uma possibilidade. Se ainda existe amor, respeito, admiração e disposição dos dois lados, talvez vocês precisem parar de tentar ressuscitar um relacionamento que já morreu e começar outro. Afinal, ressuscitar pressupõe trazer de volta o que era. Começar outro pressupõe aceitar que o que era morreu. O que Esther traz e permeia todo o filme não é uma defesa da permanência, é uma defesa da capacidade de deixar morrer o que já não serve, mesmo quando a gente escolhe continuar amando a mesma pessoa. E em vez de se perguntar como a gente volta a ser como era, passar a fazer uma pergunta muito mais fértil. Quem nós somos agora? E o que essa nova versão de nós duas precisa?
— .(Escrito dia 30/07/2026, às 19:02)


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